
As nuvens manchadas
pela água permanente:
esperam aspersão.

As nuvens manchadas
pela água permanente:
esperam aspersão.
Ocorreu-me nesse dia gastar a eternidade
na cara dos meninos, manter o tamanho
das suas cabeças, os seus panos
feridos de África, era o que tinham
um olhar
mantiveram-no fundo e sem sonhar
Os olhos, o ranho, a paz na cara que era deles
não sabiam
como iriam iluminar a câmara escura
do futuro.
Meninos de Saurimo em 1969, durante a guerra colonial, Angola. Foto do autor.

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Mulher com livro, Picasso
Estive contigo todo o dia no meu ouvido
à volta do meu pescoço
o teu perfume, de gotas brilhantes
invisíveis, na dupla palma
das minhas mãos o vento
traz o minúsculo instante da poeira
Estive com os meus cabelos
sonhando com as tuas mãos
estive a respirar o ar
que deixaste para trás
guardei na minha retina a soma
do abrir e fechar dos teus olhos
o teu silêncio agora toca-se
em cada coisa que ficou
cuja textura é inquebrável
como uma lágrima.
3.5.2009

Da neve em Varadero não sabemos
nada senão a sua própria água
Quando em Varadero há neve
são os olhos que sonham
alegres
na espuma em Varadero
na dissipação do mar
em espuma em Varadero.
O meu coração sem trânsito
num tempo
de amores platónicos
no ano 1961.
Os olhos fugiam
para a janela aberta da casa
ali ao lado.
Nem ouvia os ruídos da rua
começava a ter
Angola
as obscuras mortes
e a juventude pendurava
o seu sorriso
na sala oval da América.
Hoje é a mesma rua uma água
turva e larga, por onde se vai
para casas vazias.
Levantam-se os salmistas