Perseguições

Posted in Uncategorized on Dezembro 19, 2011 by jtparreira

Há uma cova de leões

mais funda

do que a garganta das feras

um fogo de uma ponta a outra

do forno

pronto a derreter a nossa carne

há rios que não correm

para os nossos lados e das margens

do Quebar não vemos no espelho

do rio o nosso rosto

No nosso dilúvio

de lágrimas, nenhuma pomba

trouxe o verde, um ramo

de água limpa, uma rosa

mesmo descolorida

Depois,  a mentira da água

nos chuveiros e de novo

os fornos

aquecidos setenta vezes sete.

19/12/2011

 

19/12/2011

O rapaz do pijama às riscas

Posted in Uncategorized on Outubro 2, 2011 by jtparreira

 

O rapaz do pijama às riscas

senta-se num banco de cimento

numa casa hermética

no cimento

e sela com a sua mão a mão

de outro rapaz

ambos livres do pijama às riscas

agora no silêncio da nudez.

1/10/2011

A Mulher de Azul de Vermeer

Posted in Uncategorized on Setembro 3, 2011 by jtparreira

The painter’s vision is not a lens,
It trembles to caress the light

Robert Lowell

Diziam

que a visão do pintor

não é uma lente, que tremia

ao roçar pela luz, pelo corpo

vestindo-o

de um céu azul

Vermeer pincelou o sol

na parede, cobriu

os olhos

da sólida mulher

que atravessam para longe

cada palavra que lê.

26/7/2011

Jacob e o Anjo

Posted in Uncategorized on Julho 11, 2011 by jtparreira

 

 A interminável luta, mãos

entre mãos, a voz

nos olhos de ambos, quando os lábios

estão calados

Jacob e Anjo, a luta

recomeçam golpe a golpe

anjos sem armas

no bálsamo da noite, na íntima

tessitura

da música da água.

11/7/2011

O PINCEL DE PICASSO

Posted in Uncategorized on Junho 21, 2011 by jtparreira

Vejo no pincel de Velasquez

a luz branca que penteia

os cabelos das Meninas

como vejo no pincel de Picasso

como vivem

Les Demoiselles d’ Avignon

Não como no pincel de Van Gogh

onde nem sempre os amarelos

são a pura alegria

No pincel de Arles vejo

a dança do vento

na anatomia dos trigos

e o sol que se estende

nas pétalas dos girassóis

e a morte que parte o céu

vejo no pincel de Van Gogh

os corvos e auto-retratos

despenteando o silêncio.

15-3-2011

O anti-pródigo

Posted in Uncategorized on Junho 13, 2011 by jtparreira

 

O mundo mudou-me assim tanto

que já não me reconheces?

Estas sandálias

romperam-me os pés, este dedo

nu sem um anel

estes rasgões são o melhor

do meu vestido, ferido

cada joelho esqueceu as orações

O mundo encheu tanto

os meus olhos, que lhes mudou a cor

o meu rosto ocupa agora

um canto do espelho

Diante de ti, pai, não posso

sequer abrir a boca, a minha voz

é próxima de vidros estilhaçados

Este pulmão a tossir

este rosto cavado, por isso

tu não me reconheces.

12/6/2011

Hiroshima, Meu Amor

Posted in Uncategorized on Outubro 30, 2010 by jtparreira

Não, tu não viste nada em Hiroshima
o sol explodindo nos olhos, dentro
da tua cabeça sombras
Tu não viste nada a acontecer
o nada de Hiroshima, nem a fissão
do Amor
Nada viste em Hiroshima
Dez mil sóis de temperatura
a cobrir a morte
como um lençol de cinza.

29/10/2010